Encontro entre Griottes e nobres em Desdemona (2011), de Toni Morrison

Quando me debrucei sobre o nome griotte – parti do trabalho de Thomas Hale: From the Griot of Roots to the Roots of Griot: A New Look at the Origins of a Controversial African Term for Bard (1997) – apareceu a dúvida de qual nome utilizar para essa representação. O nome em Bambara que também aparece em A tradição viva, de Hampaté Bâ é Djélimousso. Então a questão: Griotte ou Djélimousso

Realizei um ensaio que apresentava um encontro entre diferentes intelectuais negras em contexto de América e África na peça Desdemona (2011), de Toni Morrison. Esse ensaio escureceu um caminho de pesquisa sobre um possível operador teórico para discutir a dicção poética de intelectuais negras africanas como Rokia Traoré.

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As circunstâncias acerca de Desdemona, de Toni Morrison apresentam o encontro de mulheres notáveis na literatura e na música. Em carreira, Toni Morrison escreveu duas peças de teatro Dreaming Emmet (1986) e Desdemona (2011) enquanto Rokia Traoré gravou as músicas presentes em Desdemona nos álbuns M’Bifo  Kélé Mandi in Bowmboi (2003) e Dianfa in Tchamanché (2008). 

  De um lado, Toni Morrison, professora americana e escritora. Talvez é óbvio dizer, em sua escrita Morrison credita sua militância através de fortes personagens de mulheres negras como acontece em Jazz (1992) e Amada (1987). Desdemona traz um personagem principal, uma mulher branca europeia cercada por outros personagens femininos significantes. 

 Um desses personagens, Barbary, é encenado na peça pelo outro lado desse encontro, Rokia Traoré, africana/maliana, musicista e compositora. Traoré tem uma longa carreira na música e como embaixadora. Uma discografia que entrelaça música de sua comunidade/etnia, bambara, e gêneros afrodiásporicos como o Jazz e Blues.  Seu álbum mais atual, Né So (2016),  reflete sua militância política e sua posição sobre os refugiados malianos. Então, a proposta desse escrito/leitura é cruzar alguns aspectos da tradição Mandè em relação a Rokia Traoré e sua performance em Desdemona. 

 

#A TRADIÇÃO GRIOTTE/GRIOT

 

Mali possui uma variedade de convivência de grupos étnicos. Nessas, ainda a maquinaria do colonialismo, Mali ainda se eleva em repensar a tradição e ancestralidade. Seguindo o sistema etnolinguístico, a família Mande tem uma pluralidade de grupos étnicos. Assim, considere aqui o grupo étnico Bambara ao qual Rokia Traoré pertence. griot, Amadou Hampate Ba,  descreve a tradição Mandè focando na comunidade fulani/bambara. Em uma descrição da organização bambara/fulani, Hampate Ba expõe um sistema de hierarquia de castas. Entre eles, com outras subsecções, nobres (horon),  tecelões (maabo), ferreiros (numu) etc… e um grupo particular chamado por “animadores públicos” – o griot/ a griotte ou, em Bambara, Djélimousso (mulher)/ Djéli (homem). 

Thomas Hale, em From the Griot of Roots to the Roots of Griot: A New Look at the Origins of a Controversial African Term for Bard (1997) expõe como uma visão européia: 

“Le Brasseur – colonial administrator – about the Griotte (woman)/Griot (man):[a] grillot is a species of negro actor whose theatrical costume resembles that of Harlequin. He has two or three hundred rattles [grelots] attached to his legs and belt, and makes them move when he is on stage with a variety and a cadence that would not shock the most delicate ear . . . . The grillots are liked and despised by people just like actors in Europe. They are not even looked upon as members of society, and they can only marry among themselves.” (Le Basseur Apud Thomas Hale, 1997, p.252)

 

“Le brasseur – administrador colonial – sobre as griottes (mulheres)/griot (homens) [grifo meu]: [a] grillot é uma espécie de ator negro de quem costume teatral assemelha-se do Arlequim. Ele tem duzentos ou trezentos chocalhos [grelots] anexados em suas pernas e cinto, e faz eles moverem quando ele está no palco com uma variedade e uma cadência que não chocaria o mais delicado ouvido… Os grillots são queridos e desprezados por pessoas como os atores na Europa. Eles não são ao menos vistos como membros da sociedade, e eles podem somente casar entre eles mesmos.” (Le Basseur Apud Thomas Hale, 1997, p.252)

 

O fato é que uma  Griotte/Griot tem variadas funções, como diz  Sotigui Kouyaté , a pessoa é nascida para ser uma Griotte/Griot . É uma tradição cruzada pela tradição, ancestralidade. Como Hampaté Bâ, um Griot, reconta  há vários tipos de griottes/griots: músicos, embaixadores e genealogistas. Em todo esse contexto, é importante mencionar: Uma nobre não pode ser Griotte/Griot ou vice-versa, mas…

 

#A NOBRE-GRIOTTE E O PRIMEIRO ENCONTRO

Bako Dagnon é uma griotte de uma família de músicos, tocadores de N’goni. Dagnon gravou algumas narrativas-músicas djéli rompendo com a tradição baseada na memória pela oralidade (Hampaté Bâ) e isso traz uma imortalidade a sua voz em Titati 2007 e Sidiba 2009. Ela conheceu uma jovem musicista (data não encontrada), Rokia Traoré:

 

“When I had the opportunity to meet Bako Dagnon a great djélimousso from the Kéla region, I had already made five albums and worked on several projects during a fifteen-year career. The writing had been finished for years, but I lacked the knowledge of classical songs related to the Mandingo epic history. Only djelis can teach these songs and their stories and Bako Dagnon is one of the djelis closest to the spirit of Mandingo culture and djéliya. The teaching that I received from her enabled me to complete my project.” (TRAORÉ, Rokia)

 

“Quando eu tinha a oportunidade de conhecer Bako Dagnon uma grande Djélimousso da região Kéla, eu tinha já feito cinco albuns e trabalhado em vários projetos durante uma carreira de quinze anos. A escrita tinha sido finalizada por anos, mas eu não tinha conhecimento das canções clássicas relacionada à história épica Mandingo. Somente Djélis podem ensinar aquelas canções e suas histórias e Bako Dagnon é uma dos Djélis mais próxima do espírito da cultura Mandingo e  djéliya. O ensinamento que recebi dela me habilitou a completar meu projeto.”

 

Em seu projeto, Djata – Dream Mandé, Traoré não interrompe, mas ressignifica a tradição. Talvez pode ser um atrevimento dizer nesse ensaio que  Rokia Traoré repensa uma nobre-griotte. Rokia Traoré é uma filha de um diplomata. Enquanto uma nobre, há um sistema para dissuadir Rokia Traoré de sua carreira e ela é um nome em uma  lista de musicistas (Oumou Sangaré, Fatoumata Diawara…) que foram “discorajadas” (lê-se: silenciadas). Suas ousadias não estão tão longe de uma personagem de Toni Morrison…

 

#O SEGUNDO ENCONTRO

Jamaica Kincaid em On Seeing England for the First Time (1991) usa a ironia britânica para falar sobre a colonialidade em Caribe. Uma apropriação de um dado do colonizador/opressor que, na literatura, vocaliza um subalterno “pela primeira vez”. Parte da tradição literária representa minorias e incluindo vírgulas de estigmatização com acontece em algumas obras partículas do inventor do humano. O bardo. A magnificência: William Shakespeare. 

Quando a arte é um encontro com toda uma sociedade, O Mercador de Veneza e  Othello do notável bardo comunica a atmosfera de uma Europa racista e intolerante. Toni Morrison pelo panorama de uma mulher europeia em algum contexto de subalternidade devolve para a arte como faz  Kincaid através da mesma espada. Enquanto Le Brasseur expecta “ator negro de quem costume teatral assemelha-se do Arlequim”, Rokia Traoré, em companhia de um  N’goni, performa um personagem em posição de subalternidade – Barbary, uma escrava sem origens… posição ocupada na literatura e na história da escravidão por silenciadas nobres-griottes Kélé Mandi (Kélé tem um significado em torno de “batalha”) devolve:

 

[…] all that you impose upon me with force

will only leave the imprint

of your violence and your arrogance.

One can’t force the other

to accept what is offered.

In accepting what you have to give,

I open you to what I have to offer. (p.55)

[…] tudo que você impôs sobre mim com força 

deixará somente a marca

de sua violência e sua arrogância.

Um não pode forçar o outro 

a aceitar o que é oferecido

Ao aceitar o que você tem para dar

Eu te abro para o que eu tenho para oferecer. 

 

Duas mulheres em diferentes contextos sociais implica em um encontro entre América e Africa raizado no conceito do teatro que diferencia. Toni Morrison em sua escrita repensa em uma decolonização da literatura e Rokia Traoré em uma ressignificação da tradição ambas oferecem em Viena, Maio de 2011, audácia.